História

Primeira fase

versao1Nos inícios da década de 80 do século XX, o vasto interesse dedicado ao Romanceiro desde o primeiro quartel de oitocentos em Portugal (iniciado sob a égide de Almeida Garrett) tinha declinado substancialmente. Para além da presença da ‘Nau Catrineta’ em várias antologias (tema editado até à exaustão por razões de nacionalismo equívoco, aliás) ou de algumas versões da ‘Bela Infanta’ (romance caracterizador da fidelidade feminina) pouco ou nada fora feito academicamente. Contudo, abundavam os materiais recolhidos, dispersos por livros, jornais, revistas, sem classificações rigorosas e sempre (com honradas exceções) estudados de um ponto de vista maioritariamente amador e impressionista.

Pelo contrário, contava este género com importantíssimos estudos feitos tanto pelos seguidores da escola neotradicionalista como da individualista que, em universidades europeias ou norteamericanas investigavam, essencialmente, o romanceiro em língua castelhana.

equipaderecolhaEra este o panorama quando em 1980 se iniciou, com alunos da Faculdade de Letras, um arquivo que tentasse agrupar e classificar todas as versões publicadas desde 1828 (que viria posteriormente a ser ampliado e atualizado com equipas formadas por estudantes da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e, mais recentemente, da Universidade do Algarve). O trabalho de recolha em jornais, revistas e livros (consultando variadíssimas bibliotecas, principalmente em Lisboa, Porto e Coimbra) permitiu a classificação de mais de 10.000 versões dispersas por mais de 500 espécies bibliográficas. Cada versão passou a ser fotocopiada, classificada e estudada do ponto de vista da sua fortuna editorial e devidamente arquivada. Com esta tarefa foi inventariado o corpus do romanceiro português bem como definido o número de temas que em Portugal são recordados.

Ao mesmo tempo, estas equipas dedicaram-se ao trabalho de campo, tendo percorrido Portugal de forma sistemática, de modo a poder gravar novas versões de romances tradicionais, desde a pequena incursão de fim-de-semana ao trabalho mais demorado de uma atividade contínua de 15 dias. E deste modo foram-se gravando no Arquipélago da Madeira, ou nos distritos de Vila Real, Bragança, Guarda, Viseu, Castelo Branco, Portalegre, Évora, Beja, Faro, e, em menor profundidade, nos distritos de Lisboa, Santarém, Coimbra, Porto, Braga e Açores, novas versões. Os resultados foram surpreendentes pois a tradição ainda estava viva: documentavam-se, com novas versões, temas já existentes no arquivo das versões publicadas, oferecendo a possibilidade de melhorar o conhecimento de fragmentos ou lições que tinha sido dadas à estampa profundamente retocadas por editores menos fidedignos; noutros casos ainda, recolhendo-se, pela primeira vez em todo o Romanceiro português ou mesmo pan-hispânico, temas nunca registados desde o século XVI.

Estas novas versões coligidas das memórias populares foram transcritas e classificadas, tendo algumas delas, entretanto, sido preparadas para publicação. Eis, pois, a génese deste arquivo.

Segunda fase

oarquivo2Desde cedo, o apoio das (então incipientes) novas tecnologias afigurou-se como um recurso importante. Porém, o desafio era imenso: como inserir os textos e os vários campos introduzidos em cada ficha (a classificação, eventuais contaminações com outros temas, o editor, as possíveis reedições, o ano, o lugar de recolha, etc)?

Em meados dos anos 90, com o auxílio do software Microsoft Works, foi possível a concretização de, pelo menos, uma parte do projeto: a constituição de uma base de dados para o arquivo das versões de romances, com a definição dos campos adequados à descrição destes documentos. Foram assim dados os primeiros passos; insuficientes, é certo, mas para aqueles distantes anos bastante arrojados. Com o apoio da JNICT (1995-1998) e depois da FCT (2001-2004), as inúmeras pastas onde se iam arquivando as novas versões que iam sendo exumadas, tanto em bibliotecas como em trabalhos de campo, passaram a ser revistas para assim preparar, em  data base, um Arquivo Geral do Romanceiro Português.

Com a informatização do Arquivo Geral do Romanceiro Português pode criar-se um vasto repositório onde todo o romanceiro tradicional português, desde 1828, foi devidamente inventariado, mediante uma classificação internacional estabelecida por Diego Catalán (o Índice General del Romancero) e uma referenciação editorial e geográfica.  Por seu turno, com a experiência obtida na elaboração deste arquivo, preparou-se uma outra base de dados que viesse a dar conta dos materiais inéditos (recolhidos por equipas dirigidas por Pere Ferré ou a ele enviados por alguns colaboradores) e assim se construiu  o  Arquivo Sonoro ou Arquivo do Instituto de Estudos sobre o Romanceiro Velho e Tradicional. Contudo, esta base de dados remetia para as transcrições e para as vozes, que se encontravam em dossiers e caixas em lugar à parte, pois aqui também não se podiam incluir nem o som nem o texto.

No entanto, as bases de dados independentes constituídas, que deram azo à edição de uma bibliografia (em 2000) e a uma edição em livro do romanceiro português editado entre 1828 e 1960 (em 2000, 2001, 2003 e 2004), enfermavam, pelo menos, de um pecado original: os seus textos continuavam ausentes. A sua consulta só era possível de forma presencial. Quanto muito, poder-se-iam enviar algumas versões; mas, com frequência, o investigador precisava de realizar a consulta sistemática da totalidade das versões de um tema ou da totalidade do arquivo e, nesses casos, era completamente impossível satisfazer, por correio, as suas necessidades.

O Romanceiro, hoje

Em 2013, o apoio concedido pela Fundação Calouste Gulbenkian permitiu arrancar com a aventura digital do Romanceiro português, com a transposição do grande arquivo para formatos digitais.

Em 2016 nascia, finalmente, o projeto romanceiro.pt. Mais ambicioso e tecnologicamente consolidado, pretende abrir o Arquivo do Romanceiro Português a um público não especializado. Ao mesmo tempo, assume-se o desiderato de dotar a plataforma de novas valências de pesquisa. Exemplos disso são a área de trabalho do romanceiro antigo ou a área de estudo musicológica, entre outras valências atualmente em implementação.

timeline

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